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Dicas e Ideias

2.0 - O PASSADO VIVO


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O PAPAGAIO DO VOVÔ

Era verão, com uma bela manhã.

Eu estava sozinha, em férias, na casa de colegas e amigos, no Midi.

Acordando cedo, saíra para o jardim, sem fazer ruído, a fim de ver o nascer do sol sobre as montanhas, atrás de Saint-Baume.

Desconhecendo os hábitos da casa e não querendo incomodar, quedava-me tranquila, perto da piscina, à sombra dos pinheiros.

Tudo estava em paz...Era tudo ordem e beleza...brilho, calma e deleite.

De repente:

"Para a mesa! Rápido, rápido, rápido, para a mesa!..."

Os cães se precipitaram, e eu atrás deles, para a grande sala de jantar, no living, onde...não havia ninguém.

A voz, uma voz masculina, vigorosa, cônscia de seus direitos e habituada a dar ordens, a voz repetia:

"Para a mesa! Mônica, depressa! Para a mesa! E senta direito!" Instintivamente me empertiguei.

Os cães se orientavam pela voz e estancaram diante da gaiola do papagaio, atentos, deram um tempo e voltaram a se deitar.

Também eu estava confusa como eles e fiquei esperando no jardim.

Mais tarde, durante um autêntico café da manhã dominical, agradável, íntimo, descontraído e animado, meu amigo Michel explicou-me que por

ocasião da morte de seu avô, herdara o papagaio - um papagaio centenário - que de vez em quando "falava" como se falava outrora na família.

Era tão verdade, ao ponto de enganar qualquer um.

Para meus amigos, "a família" estava sempre lá.

Que presença, que calor, que convívio trazia aquele papagaio!

Que continuidade na descendência, que segurança renovada!

Mas também que segredos eventuais poderiam ressurgir, quantos "não ditos" proibidos, quantas ordens a repetir ou relembrar?

Era o passado, o passado vivo, o passado sempre vivo e interagindo no presente.

Esta experiência foi para mim uma via de acesso ao passado-presente, no indo-devindo.

"O morto escolhe o vivo" sempre disseram os notários, retomando o adágio romano.

Continuamos a cadeia das gerações e pagamos as dívidas do passado, enquanto não "se apagou a lousa", uma "lealdade invísivel" nos impele a repetir, queiramos ou não, saibamos ou não, a situação agradável ou o acontecimento traumático ou a morte injusta, trágica até, ou o seu eco.

Livro Meus Antepassados
Anne Ancelin Schutzenberger