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Dicas e Ideias

1.0 - O PODER DO MITO - DO SIMBÓLICO AO DIABÓLICO

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O INÍCIO 

 

  "A história começa pela história.

  O ser humano nasce de uma história entre um homem e uma mulher.

  A gente conta histórias como uma tentativa de explicar um fato.

  Não é a verdade.

 É meia-verdade e meia-mentira."

 

 

A gente começa a vida e a nossa história de vida, pelo Imaginário dos outros - o ideal.

 

Nascemos dos sonhos e das histórias dos outros. E para sobrevivermos precisamos num primeiro momento sermos imaginados e de nos apoiarmos (rito) no imaginário e nas histórias de nossos antepassados – a nossa base.

 

Como na canção de Caetano Veloso, chegamos nesta vida sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos.  O bebê chega a esta vida sem defesas imunológicas suficientes para protegê-lo de tantos vírus e bactérias e também sem mecanismos de defesas para o seu frágil ego. Mas em contrapartida, chega a esta vida com um imaginário individual riquíssimo, que pouco a pouco será recheado pelo imaginário familiar, grupal e coletivo.

 

A neo-psicanalista Melaine Klein, entendeu bem como o Imaginário de um bebê funciona – um oceano de imagens e emoções, ainda desconectado com o Real.

 

Um bebezinho faz uso todo o tempo do seu Imaginário e então imagina que tem uma mãe boa, que o alimenta deixando-o feliz e tranqüilo. Mas em outro  momento  imagina que tem uma mãe má, que o deixa com fome e raivoso. Um bebê não tem pensamentos e nem sentimentos elaborados. 

 

O funcionamento inicial da criança é através da vida de fantasia, a qual, progressivamente, através das relações objetais, cederá lugar às emoções mais complexas e aos processos cognitivos.          

                                                                                             

Pode-se dizer que a criança de tenra idade suplementa a lógica pela vida fantasmática, na qual estão sempre presentes tanto fatores biológicos quanto ambientais, o que determina que as fantasias, embora obedeçam a certos padrões, sejam infinitamente variáveis. A vida de fantasia é, portanto: o terreno donde jorram a mente e a personalidade. (Klein, 1986b, p. 284).

 

De acordo com Melaine Klein, o Imaginário pode ser considerado uma estrutura através da qual o sujeito se relaciona com os objetos exteriores. Durante o período inicial da vida, a mente infantil funciona basicamente através de fantasia inconsciente, a qual suplementa o pensamento racional enquanto este não estiver desenvolvido.

 

Nascemos mergulhados no Imaginário, associado ao Imaginário familiar, grupal e coletivo.  Exemplificando: quando nascemos recebemos um nome, feio ou bonito, que já vem impregnado pelo Imaginário de nossos pais, do nosso grupo familiar e de nossos antepassados.  

 

Quando nasci,  Jacqueline  Kennedy  era  uma  mulher  muito  admirada  em  todo  o  mundo. Ela tinha ficado viúva de John Kennedy, um homem de uma família poderosa e também presidente de um país em plena glória. Então já nasci apoiada no Imaginário familiar que estava recheado de expectativas gloriosas a meu respeito. Como se não bastasse ter o nome da primeira dama mais famosa daquela época, o meu segundo nome, Cássia, veio a partir de uma promessa feita por minha avó paterna, que era muito devota de Santa Rita de Cássia – a santa das causas impossíveis...

 

Assim, nasci dentro dos sonhos dos meus pais de ter uma filha ao estilo Jacqueline Kennedy e dentro do Imaginário de minha avó paterna de ter uma neta que tratasse de causas impossíveis.  Além de existir no Imaginário dos meus pais uma expectativa muito alta a meu respeito, também fica claro que eu já existia muitos anos antes de ser concebida, no imaginário da minha avó (projeto senso).  E isto foi forte e muito determinante em minha vida, principalmente na área profissional.

 

Mas este era o sonho, o Imaginário dos meus pais e da minha avó. E qual  era  o meu sonho? 

 

Então entendi que a gente só prossegue na vida se sairmos dos sonhos dos outros e formos atrás de nossos sonhos. Esta é a parte complicada, sair dos sonhos dos outros e passar a "bancar" os nossos sonhos, criar ideiais e idéias próprias e responder por nossas felicidades e infelicidades.

 

Mas se não saio dos sonhos dos outros (rito),  viro personagem de suas histórias, ficção (mito). 

Exemplo: Uma pessoa pode dizer: estudei Medicina, porque meu pai queria um filho médico!  Ou seja, passo uma vida em função dos outros, da história dos outros.

 

"Ou você vive gastando o que recebeu da vida

ou você constrói o que quer ser. 

Ninguém nasce pronto, mas em construção!"

 

Você só estará vivo de verdade e não apenas ser uma personagem, se passar a ter sonhos próprios, realizando ou não.

 

Mas cuidado! Tem o sonho positivo, que é integrador, porque está conectado ao Real e o sonho negativo, desintegrado ou ilusório. O psicótico talvez não sonhe, mas delira. É um sonho de um Imaginário iludido e ilusório.

 

 

AFINAL, O QUE É IMAGINÁRIO?

 

Imagem, imaginação e imaginário radicam do latim imago - ginis.

 

A palavra imagem significa a representação de um objeto ou a reprodução mental de uma sensação na ausência. Essa representação mental, consciente ou não, é formada a partir de vivências, lembranças e percepções passada e passível de serem modificadas por novas experiências.

 

E Imaginário é o vocábulo fundamental que corresponde à imaginação, como sua função e produto. O Imaginário se fundamenta no semelhante e reporta-se à fase do espelho, na qual o ego da criança de poucos meses se constitui a partir da imagem do semelhante. É próprio de o Imaginário reduzir o outro a si mesmo, o diferente ao idêntico, o estranho ao semelhante. O Imaginário, sempre nesta acepção, se alimenta de sinônimos, analogias, metonímias, isomorfismos e homologias.

 

Por exemplo, eu imagino como é Moscou a partir da minha experiência de vida e de dados que eu adquiri sobre essa cidade. Até eu passar pela prova do Real – ir a Moscou - é apenas Imaginário meu. Não é real. É uma imagem, uma fantasia criada até a partir de dados reais, de fotos e filmes que vi ou de informações que li, mas é Imaginário ainda. Eu nunca fui a Moscou.

 

Agora se finalmente vou a Moscou, e passo pela prova do Real, a cidade de Moscou será com certeza diferente (para mais ou para menos) do que imaginei. O difícil aqui é a diferença, porque o Imaginário não corresponde ao Real. Pode ser até próximo do que imaginei, melhor ou pior, mas dificilmente igual.  Esquematizando: primeiro imagino, crio uma imagem buscando a semelhança e criando uma expectativa. Aí quando vem o teste do Real – vem a diferença - tenho uma decepção ou até frustração.

 

Mas como tudo é sistêmico, Imaginário não é bom e nem é ruim. Depende de como você o usa. O Imaginário também pode ser a ferramenta mais rápida para se fazer contato com o Real, através da intuição. Mas vai precisar de uma estrutura concreta para funcionar. Por exemplo, o pintor precisa de uma ferramenta (cérebro, mãos, pincéis) para pintar e expressar o seu Imaginário.

 

 

O QUE É REAL?

 

O Real é o encontro do Imaginário e do experimento.  Em um ponto eu imagino, no outro eu experimento. O Real então é feito destes dois lados. É Real quando está de dentro e de fora.

 

A função do Real é favorecer o encontro e a negociação com as partes: o bem e o mal, a alegria e a tristeza, o dia e a noite, o masculino e o feminino. E a diferença que faz a diferença.

 

Se meus pais imaginaram uma filha com uma estética de Jacqueline Kennedy e minha avó uma neta com a ética sagrada de Santa Rita de Cássia, me resta negociar com este Imaginário familiar e atualizá-lo no Real.

 

Por si só, o Imaginário de meus pais e de minha avó não foi bom e nem ruim em minha vida. Seria danoso se eu não o integrasse ao Real. Se eu vivesse dividida entre a imagem estética de Jacqueline Kennedy e a imagem sagrada de Santa Rita de Cássia, além de não considerar a minha essência.

 

Até certa idade, somos construídos do lado de fora, pelo Imaginário familiar, pelo Imaginário de meu grupo social, etc. Mas depois, me resta desconstruir o que construíram para mim e construir do meu jeito.

 

Reflexões devem ser feitas: - O que eu posso fazer; o que eu consigo fazer; o que me faz bem; o que me serve? Assim, a partir de uma boa negociação eu posso ser quem eu sou com todos os meus limites e possibilidades e não apenas ser um sonho iludido e ilusório familiar. 

 

 

MITO UNIVERSAL - O SIMBÓLICO

 

 

O Simbólico – de symbolos: função do sagrado, que vincula e indaga pelo sentido.  

O Mito Universal e Simbólico integra o obscuro, o incompreensível, a sombra.   

 

Uma característica do mito é o "pensamento simbólico", que transmite significados não de forma lógica, mas analógica.

 

O Mito Universal conta através de histórias, situações da vida do ser humano desde o início dos tempos, utilizando uma forma dinâmica e animada por símbolos. Seu dinamismo pode tomar duas direções opostas:

 

1)     O DIABÓLICO: este caminho diabólico, de diabolos, o que divide, fazendo uma identificação com os deuses e com os heróis imaginários conduzindo à alienação. Aqui o melhor exemplo é o Mito Familiar com a tendência dos membros familiares em copiar as modas, ritos e crenças, sem reflexão.  Essa estrutura tem a qualidade de tomar o sujeito semelhante ao outro, ao objeto da imagem, a identificá-lo a esse mundo imaginário e a separá-lo do mundo real.

 

2)     O SIMBÓLICO: que é a integração dos valores simbólicos, expresso através das estruturas do Imaginário favorecendo a individuação ou o desenvolvimento harmonioso da pessoa. Essas estruturas incitam ao sujeito se tornar ele próprio, em vez de alienar-se num herói mítico. Essa integração tem um valor sintético – de assimilação interior de si mesmo e dos valores exteriores, em vez de ser uma assimilação só aos valores exteriores. Aqui o sujeito deixa de ser cópia e torna-se original.

 

Joseph Campbell considera o mito simbólico, uma poética da vida, que nos ajuda a colocar a mente em contato com a experiência de estar vivo. Ao invés de ser uma busca de sentido é uma experiência de vida.

 

Na sua visão, são quatro as funções do mito: a mística, o espanto diante do mistério; a cosmológica, como forma de compreensão do mundo, da qual se ocupa a ciência; a sociológica, como suporte e validação de uma ordem social específica e a pedagógica, como orientação nas diversas etapas da existência. A mitologia vem da consciência da morte; de que a vida se alimenta da vida e do deslumbramento diante da experiência vital. É a música da imaginação, inspirada nas energias do corpo.

 

Para Campbell, mitologia é uma metáfora transparente à transcendência, sendo os mitos, metáforas da potencialidade espiritual do ser humano. Os mesmos poderes que animam a nossa vida animam a vida do mundo. Nesta concepção, os deuses são personificações de um poder motivador ou de um sistema de valores que funciona para o ser humano e para o universo. (Campbell, 1991)

 

O Mito Simbólico revela, com a ajuda de imagens e de situações simbólicas, o passado e o presente conflitantes a ser superado e o projeto de um futuro realizador.

 

Durante séculos, os seres humanos usaram mitos, contos de fadas e folclore, para explicar os mistérios da vida e torná-los suportáveis. Desde o porquê das estações do ano mudar, até o enigma da morte, passando por complexas questões de relacionamento. Jesus explicou seus ensinamentos por meio de parábolas dando a seus seguidores problemas difíceis sob uma forma fácil de compreensão. Platão transmitiu conceitos filosóficos obscuros através dos mitos e alegorias simples. Na antiga medicina hindu, quando alguém com dificuldades mentais ou emocionais consultavam um médico, este lhe prescrevia uma história sobre a qual meditar, com isso ajudando o paciente a encontrar sua própria solução para o problema. (Liz Greene, Juliet Sharman- Buke, 1999) 

 

 

      "Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido,

de significação, através dos tempos.

Todos nós precisamos contar nossa história,

compreender nossa história."

 

Precisamos descobrir o que somos: no verso e no reverso, na luz e na sombra, no claro expressado e no escuro escondido.

O mito ajuda a colocar sua mente em contato com a experiência de estar vivo. Oferecem modelos de vida: estágios de vida, cerimônias de iniciação (rituais) quando você passa da infância para a as responsabilidades do adulto. Da condição de solteiro para a de casado. O processo de atirar fora o que é velho para voltar ao novo, assumindo uma função responsável. (Joseph Campbell, 1991)

      

"A única maneira de conservar uma velha tradição é

renová-la em função das circunstâncias da época."

J. Campbell

 

 

MITO FAMILIAR: O DIABÓLICO

      

O Diabólico – de diabolos: o que divide – precisa ser complementado pelo simbólico.

 

Outros conceitos que são confundidos com MITO:

  1. Dogma: dá apoio e estrutura a qualquer sistema. Ligado ao passado, visa dar uma estabilidade ao sistema através de uma resignação do indivíduo (não pode ser questionado). É somente funcional para crianças.
  2. Moda: desfaz-se no ar, é passageira e não tem consistência própria. É pura imitação. Característica adolescente na medida em que é vivida num contexto de liberdade sem responsabilidades.
  3. E valor é escolha pessoal. São os ideais escolhidos pelo próprio indivíduo, que os encaminham em direção ao futuro. Tem a característica de liberdade e de responsabilidade e a interação de co-autoria e co-participação.

 

Mito Familiar se constitui, portanto, de crenças compartilhadas, aceitas sem que ninguém as questione ou desafie.

 

Se os aspectos de falsidade ou ilusão forem reconhecidos, tendem a ficar em segredo. Percebe-se aqui o mecanismo e a função homeostática do Mito Familiar de manter a concordância grupal e fortalecer a manutenção de papéis de cada um.

 

O mito da família é como um quadro para a interpretação da realidade, em parte herdada de gerações passadas, em parte, criado na geração atual, que dá a cada membro da família um papel específico e um destino.

 

É um conceito utilizado para descrever a crença da própria família, que consiste em imagens e lendas que ajudam a criar um sentimento de identidade da família. Os mitos, embora falsos e ilusórios, são aceitos por todos, e não tem algo de sagrado e tabu que alguém ousaria contestar. Na verdade, para cada família os seus próprios mitos representam a verdade.

 

"Em qualquer relacionamento - escreve Andolfi e Angelo (1989) - você vai, mais cedo ou mais tarde criar um mito. O fato de que em cada relacionamento existir uma margem de ambigüidade, onde as lacunas de informação na construção do vínculo e compreensão mútua são preenchidas através da formação de estereótipos que tentam induzir os participantes a comportamentos específicos, servindo para manter o vínculo."

 

O Mito Familiar desenvolve o "vazio", a falta ou a incompletude dos dados e explicações. Byng-Hall em "Le trame della famiglia" (1998), identifica quatro componentes de histórias de família que são parte da mitologia da família:

 

1.    Histórias de família ou anedotas: histórias são contadas por diversão, com um heroísmo, muitas vezes exageradas do que a realidade, os heróis estão sempre na beira do desastre.

2.    Criação de histórias ou contos de fadas: episódios inventados e apresentados como realidade. É algo que pode ser feito conscientemente, por exemplo, para justificar a ausência de um familiar, doentes mentais e eventos negativos, que são mantidos como fantasias secretas e que não são mais distinguíveis de mito e pode determinar o comportamento da família ou um seu membro.

3.    Segredos de família: são fatos que são comunicadas em particular, para não dizer a ninguém, mas todos os envia para outro membro da família, por isso pode tornar-se acessível ao público, no entanto, amarra o confidente e o ouvinte em uma coalizão escondida.

4.    Família e lendas: histórias muito coloridas e exageradas que são transmitidas de geração em geração. São histórias que comunicam as regras morais e as obrigações da vida familiar. São moldadas pelo narrador e responde às necessidades homeostáticas da família para que as mudanças acidentais na história sejam consistentes com as crenças atuais da família.

 

Um segredo ou um mito são baseados em um evento real ou em fantasias decorrentes do evento real. Freqüentemente a fonte de um mito familiar é perdida, mas parece que isso não enfraquece a sua força e eficácia.

 

Pode-se dizer que isso é algo que fica no subterrâneo de uma geração que permanece em silêncio e então emerge novamente ou poderá explodir na conduta de um membro da família em uma geração futura.

 

 

        Ferreira escreve, o mito da família é a pedra angular

sobre a qual mantém a homeostase do grupo que o produziu.

(1971)

 

 

As histórias de família são complexas e ricas de significados ocultos nas dobras das gerações e na dinâmica das relações entre os membros. Assim, o mito tem uma função de coesão entre os membros da família e qualquer tentativa de ataque, é represada, rejeitada, porque ela representa um ataque à identidade familiar.

 

Na verdade, toda família tem suas próprias práticas, seus mitos, que já foi funcional por muitos anos nas necessidades do sistema familiar. Parece muito lógico para os membros da família, mas para observadores de fora pode parecer misterioso, desconcertante e incompreensível, ou até mesmo ofensivo.

 

Lembrando que o ser humano tem uma necessidade de pertencimento, Andolfi e Angelo escrevem:

 

"As dificuldades que estão por trás do surgimento de mitos familiares

são aqueles relacionados com os processos evolutivos de separação e individuação."

(Andolfi e Angelo, 1989).

 

Mas, sabendo ou não sabendo sobre sua história familiar, você vai ser julgado por isso. Isto tem a ver com segredos, vergonhas ou missões não cumpridas dos nossos antepassados. Isto vai sobrar para alguém da família. Em geral acontece na 3ª. geração, ou seja, é o neto que paga o pato. Ele tem que limpar a barra dos avós. Já os pais estão também limpando a dos seus avós e assim por diante... Cada neto tem influência até sete gerações para trás.  Zélia Nascimento.

 

 

DA TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA  À  PSICOGENEALOGIA 

 

     "Os mortos estão invisíveis, mas não ausentes"

Santo Agostinho

 

Somos muito menos livres do que acreditamos ser. Mas podemos sair desta escravidão mítica repetitiva, ao compreender o que acontece. Podemos enfim, viver nossa vida e não a de nossos pais ou avós, nem a de um parente falecido, por exemplo.

 

Anne Ancelin Schutzenberger conta uma história muito interessante em seu livro Meus Antepassados (1997), que vou transcrever aqui neste texto:

     

Era verão, com uma bela manhã. Eu estava sozinha, em férias, na casa de colegas e amigos, no Midi.

 

Acordando cedo, saíra para o jardim, sem fazer ruído, a fim de ver o nascer do sol sobre as montanhas, atrás de Saint-Baume. Desconhecendo os hábitos da casa e não querendo incomodar, quedava-me tranqüila, perto da piscina, à sombra dos pinheiros.

 

Tudo estava em paz... Era tudo ordem e beleza... brilho, calma e deleite.

 

De repente: Para a mesa! gritou de longe uma voz imperiosa; Para a mesa! Rápido, rápido, rápido, para a mesa!... Os cães se precipitaram e eu atrás deles, para a grande sala de jantar, no living, onde... não havia ninguém.

 

A voz, uma voz masculina, vigorosa, cônscia de seus direitos e habituada a dar ordens, a voz repetia: Para a mesa! Mônica, depressa! Para a mesa! E senta direito! Instintivamente me empertiguei. Os cães se orientavam pela voz e estancaram diante da gaiola do papagaio, atentos, deram um tempo e voltaram a se deitar. Também eu estava confusa como eles e fiquei esperando no jardim.

 

Mais tarde, durante um autêntico café da manhã dominical, agradável, íntimo, descontraído e animado, meu amigo Michel explicou-me que, por ocasião da morte de seu avô, herdara o papagaio – um papagaio centenário – que de vez em quando falava como se falava outrora na família. Era tão verdade, ao ponto de enganar qualquer um.

 

Ora era o avô, médico, chamando todo mundo para as refeições, sobretudo os netos; ora era um ou outro membro da família e seus amigos. Ninguém sabia o que destravava a memória do papagaio nem que coisa ou coisas iam dela sair.

 

Para meus amigos, a família estava sempre lá. Que presença, que calor, que convívio trazia aquele papagaio! Que continuidade na descendência, que segurança renovada! Mas também que segredos eventuais poderiam ressurgir quantos não ditos proibidos, quantas ordens a repetir ou relembrar?

 

Era o passado, o passado vivo, o passado sempre vivo e interagindo no presente.

 

Esta experiência foi para mim uma via de acesso ao passado-presente, no indo-devindo.

 

Continuamos a cadeia das gerações e pagamos as dívidas do passado; enquanto não se apagou a lousa, uma lealdade invisível nos impele a repetir, queiramos ou não, saibamos ou não...   (Ancelin Schutzenberger, 1997)

 

 

Nos cursos de Pensamento Sistêmico, ministrado por Dra. Zélia Nascimento, sempre a escutava dizer: "família é fonte de inércia"!

 

Inércia, pela Física, é uma  propriedade da matéria que faz com ela resista a qualquer mudança em seu movimento.  Em terapia sistêmica usamos o termo homeostase estática que significa permanecer sem alterações no mesmo estado.  E no popular falamos em  acomodação.  Entendo isto, como uma dificuldade do ser humano em ir além da identificação-cópia e ser original e individuado.  Criar seu próprio caminho, seu próprio destino e responder por ele.

 

A primeira parte de nossa vida vivemos com o que nos foi destinado, especialmente no que se refere a valores fixos. Se a família é presa a algum valor, seja lá o valor que for, torna-se fixo e vira crença arraigada, não pode renovar e reciclar e isto é inércia. 

 

O oposto são valores atualizados. Renova, vai além da tradição. Aí esta família terá mais fluidez, movimento e menos encrenca. 

 

Valor fixo é igual fantasma  -  ninguém vê, mas aparece na manifestação de status.  Manifestam-se no grau de importância que uma família dá às "aparências", a status, importância social. A partir daí, nas individualidades, vê-se o grau das vaidades exageradas. Lembrando que vaidade natural é cuidar da aparência, do nome, ser reconhecido e vaidade exagerada é uma super proteção das encrencas individuais e familiares, onde tudo é justificado.

 

"Este texto foi elaborado a partir de vários livros e autores e principalmente

a partir das aulas do Curso de Pensamento Sistêmico,

coordenado pela minha Mestra Zélia Nascimento,  em Belo Horizonte,  Brasil. 

Aproveito esta oportunidade para agradecê-la por todos os anos de estudos

e vivências em seus cursos e em psicoterapia."  

 

Brasil, fevereiro de 2011

Texto revisado -  Itália, agosto de 2017

 

PSICOGENEALOGIA SISTÊMICA®
Prática transgeracional por Jaqueline Cássia de Oliveira

 

 

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Psicóloga - CRP 04/7521

Psicoterapeuta Familiar Sistêmica (Brasil)

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A  PSICOGENEALOGIA SISTÊMICA®

 

  • A Psicogenealogia é um tema relativamente novo e a psicóloga e psicoterapeuta Jaqueline Cássia de Oliveira é uma das pioneiras desses estudos e trabalhos no Brasil.
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  • Traduziu e apresentou o livro: Jung, Psicogenealogia e Constelações Familiares© de Maura Saita Ravizza, pela Interação Sistêmica Edições.
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  • De 2011 a 2016, junto à Interação Sistêmica®, organizou e ministrou cursos e workshops sobre o tema transgeracionalidade e  Psicogenealogia Sistêmica®, reunindo mais de 700 profissionais, entre psicólogos, psicoterapeuta sistêmicos e consteladores familiares de diversas regiões do Brasil.
  • Nomeou seus estudos e trabalhos sobre transgeracionalidade (dentro da visão da Psicogenealogia, da Terapia Familiar Sistêmica e da Psicologia Arquetípica e Imaginal) como Psicogenealogia Sistêmica®
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