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Dicas e Ideias

2.0 - CONSTELAÇÕES PSICOGENEALÓGICAS

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Dott.ssa Maura Saita Ravizza 

 

"Como entender a transmissão transgeracional

de segredos e traumas de família

se não admitirmos a existência de uma

memória inconsciente das histórias familiares

que se transmitem de geração em geração e

portanto de uma parte inconsciente e coletiva da nossa psique?"

 

 

Como pode as pessoas terem distúrbios, dificuldades inexplicáveis e quando desenhamos seu genograma se descobre sempre repetições de cenários, de datas, de incidentes e de segredos aparentemente esquecidos, mas relacionados com os seus sofrimentos?

  

Devemos sempre imputar ao acaso que se durante o trabalho de Psicogenealogia acontece eventos particulares, lapsos, intuições, fatos estranhos, coincidências que nos ajudam a esclarecer a história familiar dos quais nos ocupamos?

   

Como explicar que durante a prática das Constelações Familiares as pessoas experimentam emoções e sensações que não tem nenhuma relação com a suas situações atuais, mas que tem a ver com as emoções e as sensações que viveram os seus antepassados e frequentemente de outros familiares das pessoas cujas  constelações se ocupam?

   

Um outro fato que me fascina sempre é que quando falo das transmissões transgeracionais de traumas com alguém que não conhece o assunto, encontro uma adesão imediata.

   

Também os mais acéticos, quando digo que a base da Psicogenealogia é a hipótese que as dificuldades que vivemos no presente têm origem na história de nossos antepassados, compartilham sem dúvida desta ideia. Até mesmo a consideram verdadeira.

   

Como pode, uma coisa desconhecida como as transmissões entre gerações ter uma aceitação imediata pelas pessoas também mais incrédulas ou sem nenhum conhecimento do assunto? De onde vem esta certeza?

   

Como se transmite estes conteúdos?

   

Porque durante a prática das constelações atos inexplicáveis, mas com relação estreita com a história que se está colocando em cena, acontecem?

 

Como pode os segredos de família determinarem a nossa vida? 

   

A hipótese da existência dentro de nós de uma parte desconhecida que determina a nossa parte consciente foi proposta há muitos séculos e a psicanálise de Freud, que já tem mais de cem anos, focava no tratamento dos distúrbios psíquicos.

   

Mas o inconsciente proposto de Freud, limitado só à repressão das experiências pessoais, não é suficiente para explicar a existência destes outros fenômenos. Freud mesmo se deu conta e refletiu sobre a existência de uma instância coletiva transmitida de modo inconsciente (herança arcaica) mas preferiu concentrar-se totalmente sobre a concepção que fez da libido sexual o único motor do ser humano.

   

Tinha razões históricas para fazer esta escolha: no século de Freud a sexualidade era um tabu também no ambiente médico e as doenças como a histeria eram tratadas somente com a internação psiquiátrica.

    

Jung avançou mais na elaboração de uma teoria sobre o funcionamento da psique e postulou a existência de um inconsciente coletivo alem do individual.

 

Infelizmente foi muito desprezado pessoalmente nos ambientes psicanalíticos: não o perdoavam por ter matado o pai (Freud). Este seu isolamento fez com que também Anne Ancelin Schutzenberger  não tenha aprofundado na matriz junguiana da Psicogenealogia.

  

A teoria de Jung sobre o inconsciente coletivo e a sincronicidade nos mostram que a nossa psique não é composta só de experiências pessoais mais ou menos reprimidas, mas também de conteúdos que pertencem à experiência de toda a humanidade.

   

Segundo esta concepção, na psique humana é registrada também a história da nossa família, os sentimentos que os nossos precursores viveram, bem como os traumas e os sofrimentos, como são registrados no corpo as características físicas herdadas dos nossos antepassados.

   

Esta memória familiar faz parte daquilo que Jung chamou de inconsciente coletivo. Alargando o conceito de inconsciente falando de uma relação entre ele e os fatos que acontecem conosco: chamou este fenômeno de sincronicidade.

   

Moreno pôde verificar na prática que o inconsciente não é somente formado de experiências pessoais mais ou menos reprimidas, mas que também tem uma relação com as interações entre pessoas: nas sessões de psicodrama (assim como nas constelações familiares) um co-inconsciente conecta cada indivíduo e age. É esta entidade que pude ver em ação durante sessões de psicogenealogia e constelações familiares onde as pessoas recitam uma parte sem conhecer o script; mas seguindo uma narração dos quais são totalmente inconscientes.

   

Esses fenômenos inacreditáveis, agora,  são estados experimentados por um numero considerável de pessoas e simpatizantes das diversas teorias das quais descrevi neste livro.

   

De Jung a Freud, de Françoise Dolto a Bert Hellinger, passando por Dumas, Abraham, Torök, Moreno, Sheldrake, Boszormenyi-Nagy e muitos outros que não citei, todos concordam sobre a existência de uma transmissão psíquica multigeracional que explica a gênese de distúrbios e dificuldades na vida presente das pessoas.

 

Esses terapeutas têm verificado nas suas práticas com milhares de pacientes, que as doenças das quais estes sofrem têm uma estreita relação com os traumas psíquicos vividos por seus antepassados.

 

Françoise Dolto, por exemplo, falou de débitos inconscientes dos pais dos pacientes, assim como os efeitos patológicos do passado dos pais e dos avós, que são expressos nos sofrimentos dos filhos. O seu anunciado: precisamos de três gerações para fazer um psicótico é a pedra fundamental seja do modelo familiar sistêmico que da psicogenealogia.

 

Didier Dumas, seu aluno e discípulo, desenvolve este discurso dizendo que o não dito dos antepassados torna-se um impensável genealógico para os descendentes. Aquilo que foi  um não dito  para um bisavô pode tornar-se para um bisneto um distúrbio cujas razões são incompreensíveis porque não só são desconhecidas como não são nem menos pensadas.

  

Abraham e Törok, foram os primeiros a analisar o problema das patologias geradas pelos traumas e não-ditos dos antepassados. Os dois psicanalistas postularam a existência de uma cripta na psique, parte separada do eu (ego divisão), causada pela lacuna criada pelas ocultações dos eventos traumáticos vividos por um ascendente. Esta cripta é habitada por um fantasma, um trauma-fantasma, que se transmite de geração em geração.

 

Contemporaneamente os estudos de Boszormenyi-Nagy sobre a ética familiar, mostram que também os débitos e os méritos dos antepassados se transmitem de geração em geração. Temos um livro de contas familiar que carregamos dentro de nós e onde está escrito quem é credor e quem é devedor.

  

Moreno com a técnica do psicodrama pôde verificar em campo a existência de  um vínculo inconsciente entre as pessoas em certas situações. Este fenômeno, utilizado também por Bert Hellinger no seu método de constelações familiares, é o mesmo que também pude constatar e viver nas minhas experiências, a partir do primeiro caso, que narro neste livro, usando os modelos transgeracionais.

 

Durante as sessões de Constelações ou de Psicogenealogia se cria um vínculo particular entre o inconsciente da pessoa e a sua memória familiar (inconsciente coletivo) e entre o inconsciente da pessoa e dos outros participantes (co-inconsciente e sincronicidade).

   

As experiências destes terapeutas nos leva à pergunta inicial: por qual mecanismo psíquico as pessoas no obscuro da história familiar sofrem de distúrbios e dificuldades relacionados a traumas e aos segredos dos antepassados?

  

Como é possível que os desconhecidos possam narrar com precisão um papel do qual não sabemos (conscientemente) nada?

 

O inconsciente coletivo de Jung e a sincronicidade, são ainda as teorias mais convincentes para explicar estes fenômenos, também à luz dos campos mórficos propostos por Rupert Sheldrake.

   

Pensar que seja uma magia é muito sugestivo mas não ajuda as pessoas a irem mais além de uma compreensão ligada à fatalidade. Se continuo a pensar que é qualquer coisa que não está em mim que provoca  os eventos, não procurarei nunca dentro de mim a estrada para mudá-los.

    

Voltamos assim ao ensinamento de Jung que propõe de trazer o inconsciente à consciência porque as duas instâncias se equilibram e assim,  aquele que conduz (o consciente),  se torna aquele que é guiado (inconsciente).

   

Penso que, somente a interpretação dos sonhos e o trabalho com os arquétipos, que propõe a terapia junguiana não é suficiente: é necessário também levar luz à memória transgeracional e liberar-se dos fardos que os nossos antepassados nos deixaram e que condicionam a nossa vida.

    

A Psicogenealogia, com o genossociograma, e as Constelações Familiares, colocando em cena as dinâmicas familiares, permitem ao inconsciente familiar de expressar-se, favorecendo esta liberação.

     

A Psicogenealogia está em crescente desenvolvimento também na Itália. Dois anos atrás, quando retornei da França, onde este modelo nasceu e é muito praticado, quase ninguém na Itália sabia do quê se tratava.

    

Se pode dizer que a paternidade deste método seja prevalentemente europeia: Jung e Freud são ambos de língua alemã como Hellinger; Dolto, Dumas, Anne Ancelin, de Gaulejac e muitos outros são franceses; Abraham, Törok, Boszormenyi-Nagy, Moreno, ao invés veem do leste europeu, ex. império austro-húngaro.

  

Certamente as terríveis guerras que devastaram o nosso continente feriram gravemente as almas de quem as viveu, mas também de quem indiretamente sofreu pelas penas de um pai traumatizado, de uma mãe em luto perene e pelas consequências dos não-ditos e segredos ligados a eventos indizíveis.

 

Os massacres e os extermínios que aconteceram na Europa tem poucos equivalentes no resto do mundo: estes eventos sofridos por uma grande  população civil no momento em que a guerra não era somente dos exércitos, tornando-se um evento coletivo.

   

Um fantasma girou por toda a Europa: aquele da luta fratricida, do irmão mais forte que queria exterminar o mais frágil que fosse judeu, cigano ou homossexual.

  

A angustia estressante dos massacres e das carnificinas da primeira e da segunda guerra mundial foi vivida pelo avós e bisavós em silêncio, como um túmulo.

 

Como se, por solidariedade aos mortos que não podiam mais falar, também os vivos não tinham o direito de narrar as suas dores. Pela vergonha de terem ficado vivos depois de terem sofrido os horrores.

  

Esse passado não-dito criou os segredos, as criptas e os fantasmas, deixou marcas profundas na psique dos sobreviventes, fosse os executores ou vítimas e também nos seus sucessores.

  

Na Alemanha, Bert Hellinger, ex. padre missionário, desenvolveu uma técnica para curar as almas dos descendentes de um povo que é marcado pelo mais terrível dos crimes: o extermínio programado de crianças, velhos, mulheres e homens. Uma planificação a frio sem envolvimento emotivo: como uma operação cirúrgica. Mas com seres humanos indefesos e inocentes como vítimas.

   

As Constelações Familiares, não por acaso, são uma terapia de grupo para os descendentes de uma população que aceitou submeter-se às leis dos mais fortes.

  

Também a França viveu os seus massacres especialmente nas colônias: um amigo me fez perceber que até os anos 70, muitos homens nascidos na França tinham participado pelo menos de uma guerra. Na Hindochina e na Algeria a França deixou nos nativos péssimas recordações. As atrocidades que foram cometidas são um enorme débito que se é transmitido aos filhos, netos e bisnetos.

        

Isto explica porque nestes dois países nasceram os terapeutas transgeracionais mais importantes: a Psicogenealogia na França e as constelações familiares na Alemanha.

   

Mas sem chegar aos extremos que viveram estes dois países, toda a Europa foi dilacerada, durante o século XX, pelas guerras. Os horrores que foram cometidos são terríveis, inenarráveis. Mas os filhos sentem que os pais possuem monstros dos quais não conseguem falar e dos quais, não conseguem libertar-se.

       

A Itália viveu em primeira pessoa um outro trauma importante da nossa época: a emigração. As pessoas que são obrigadas a deixarem o seu país ou a sua nação para ir viver e trabalhar em outro lugar, vivem (como em neurose de classe) um conflito entre os seus deveres com relação à família que deixaram e a necessidade de sobreviver.

   

Boszormenyi-Nagy conheceu intimamente este conflito de lealdade que produz efeitos devastantes também porque lhes é negado o direito de existir: as pessoas que emigram devem sentir-se gratas pela possibilidade que estão tendo, sem poder externar o luto, o sofrimento.

   

Também neste caso, como nas guerras, o não-dito, o silencio sobre o sofrimento suportado, cria uma cripta, lugar onde vem soterrado a dor que não tem o direito de ser expressada.

   

Desse modo nasce o fantasma que vive nos descendentes provocando sofrimentos, mal estar e angustias, sem uma razão aparente na vida presente.

   

Freud entendeu sobre o poder liberatório da palavra: verbalizar os próprios sofrimentos serve para pô-lo para fora de si mesmo, objetivando-os e tornando-se menos devastantes para a psique.

   

A Psicogenealogia percorre o mesmo caminho usando a estrutura do genossociograma: desenhar a história da família permite evidenciar também as partes que acreditamos não conhecer.

   

A prática da Constelação Familiar conclui o percurso permitindo à pessoa de viver emocionalmente as dinâmicas familiares e colocar em ato as ações simbólicas que ajudam a reparar as injustiças e os sofrimentos da família.

   

Para concluir, quero propor uma reflexão, sugerida por uma amiga, sobre a teoria de Jung: se no nosso inconsciente coletivo se mantém a memória das vidas passadas dos nossos avós, é como se nós tivéssemos vivido as vidas precedentes, como propõem muitas culturas orientais quando falam de metempsicose ou transmigração da alma. Sendo a alma um outro modo para expressar o inconsciente (a palavra alemã é a mesma para todos os dois), a transmigração da alma poderia ser um outro modo para falar do inconsciente coletivo.

     

Também as reencarnações inferiores para quem se comportou mal na vida precedente, do qual falam algumas doutrinas orientais, podem ser comparadas aos fardos que devem suportar os descendentes quando os antepassados transmitem o seu destino negativo.

   

Os fenômenos parecem ser os mesmos: viver no presente o resultado de acontecimentos passados. A cultura oriental, mais atenta ao sentir do homem, dá uma importância maior a estes eventos.

   

No ocidente ao invés, da forma que somos estruturados culturalmente, precisamos de compreender e de tornarmos conscientes, também emocionalmente, para então podermos aceitar completamente o nosso destino, superar o sofrimento e viver em paz conosco e com os outros.

 

 

Fonte:

Livro digital – Jung, Psicogenealogia e Constelações Familiares  - Interação Sistêmica Edições

Autora: Dott.essa Maura Saita Ravizza –Psicoterapeuta e Psicogenealogista - Turim, Itália

Tradução: Jaqueline Cássia de Oliveira  – Psicoterapeuta Sistêmica e  Psicogenealogista - Brasil & Itália

 

 

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