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Dicas e Ideias

1.0 - A SÍNDROME DO GÊMEO DESAPARECIDO

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 As ecografias revelam-nos que é comum ocorrerem gravidezes múltiplas  sem que os fetos   cheguem a termo. De acordo com a investigação, um dos fetos "desvanece",sendo expelido ou   absorvido pelo útero. Há quem defenda que perder um irmão gêmeo (ou irmãos) numa fase precoce da gravidez, pode representar um trauma para a vida do sobrevivente.

 

A psicoterapeuta inglesa Althea Hayton acredita que os gémeos sobreviventes carregam uma mágoa inconsciente relacionada com a perda de um irmão, ainda que essa perda tenha ocorrido numa fase muito precoce da gravidez. Hayton defende a ideia de eles «lembrarem-se» de ter estado em contacto necessariamente íntimo com outro feto, seu irmão gémeo, no útero da mãe, embora não tenham memória consciente do facto. E as próprias mães muitas vezes também não sabem que estiveram grávidas de gémeos porque perderam o feto em fases muito precoces da gravidez, de uma forma discreta, pensando tratar-se de simples hemorragias «normais».

 

No entanto, para o gêmeo que sobrevive, a perda é real e tem consequências na sua vida de criança e depois na idade adulta. Althea Hayton, que tem passado muitos anos a apoiar os adultos sobreviventes, identificou alguns sintomas dessa perda tão precoce e, entre outras coisas, elaborou um questionário, disponível no seu site, para que as pessoas possam saber até que ponto se identificam com o «perfil» de gêmeo sobrevivente.

 

 

À PROCURA DE RAZÕES

 

Angústia, sentimento de perda, rejeição e medo de abandono, insatisfação, desadequação permanente face ao mundo, nostalgia, sentir a dor dos outros como se fosse a própria, amigos imaginários na infância e até medo do escuro, são alguns dos muitos sintomas típicos dos gémeos sobreviventes. Através das respostas ao questionário publicado no site, Hayto chegou ao contato com pessoas de todo o mundo, que se queixavam dessa nostalgia e sentido de perda permanentes e que finalmente perceberam que esses sintomas poderiam ser atribuídos à perda precoce de um irmão. Este questionário levou cerca de cinco anos a elaborar e contou com o testemunho de mais de 600 gêmeos sobreviventes.

 

PERDER O GÊMEO

 

Hoje em dia sabe-se que perder um irmão gêmeo deixa marcas psicológicas no gémeo sobrevivente, uma vez que o fato de terem coexistido no útero permitiu que se estabelecesse um vínculo entre os dois. Mas comecemos por explicar como e em que circunstâncias a mãe perde um ou mais dos seus gêmeos. A circunstância mais dramática pode ocorrer justamente na altura do nascimento dos bebés, quando um deles apresenta uma patologia grave, ou então, em consequência de um parto difícil e demasiado prolongado, em que os meios técnicos usados se revelam insuficientes, de forma que um dos bebés não resiste. No entanto, graças à tecnologia e à qualidade dos cuidados médicos, essas mortes são hoje cada vez mais raras. A situação mais comum, no caso dos gêmeos, é que a morte de um ou mais fetos ocorra antes de a gravidez chegar a termo. Se essa morte acontecer nos dois últimos trimestres, pode representar um risco de vida para o outro gémeo, podendo provocar-lhe lesões, dado o tamanho do feto. A mãe também pode ser afectada por eventual infecção intra-uterina. No entanto, o mais comum é que muitos dos embriões concebidos, pura e simplesmente não sobrevivam nas primeiras semanas da gravidez, sem que isso acarrete significativos riscos físicos para a mãe e para o feto sobrevivente.

 

CONSEQUÊNCIAS DA PERDA

 

Charles Blokage, médico do Departamento de Pediatria na Broody Shcool of Medicine e professor de Biologia na East Carolina University, declara que a morte e «desaparecimento» de um gêmeo, também conhecido por Síndrome do Gêmeo Desvanecido, ocorre pelo menos uma vez em cada oito gravidezes, sendo que o acontecimento pode perfeitamente passar desapercebido pela mãe ou pelo médico obstetra. Vários estudos científicos confirmam o testemunho do médico, alegando que, para cada par de gêmeos nascidos vivos, existem dez gêmeos sobreviventes. Nesta lógica, como a existência de gêmeos, em média, corresponde a um por cento da população mundial, os gêmeos sobreviventes corresponderão a cerca de dez por cento dessa mesma população, o que é um número significativo de irmãos abandonados, por assim dizer.

 

Sendo comum e sem efeitos significativos para a saúde da mãe e do feto sobrevivente, a Síndrome do Gêmeo Desvanecido é, contudo, considerada por Althea Hayton, como uma possível fonte de problemas psicológicos para o bebé que sobrevive e que irá crescer com esse sentimento de abandono precoce, que o acompanha na idade adulta, dado o vínculo muito precoce estabelecido com o irmão desaparecido. Por muito breve que tenha sido a coexistência. As investigações demonstram que o feto não só tem competências várias, como reage de uma forma interativa com o mundo que o rodeia.

 

O médico e cientista David Chamberlain defende, por exemplo, que «há comunicação antes da linguagem» e que as observações do comportamento dos fetos através das ecografias revelaram que eles têm «emoções fortes». Referia-se, em concreto, às reacções observadas nos fetos face à aproximação da agulha usada na amniocentese, entre as 16 e as 20 semanas de vida. Mostravam medo, com aumento das batidas cardíacas.

 

INCOMPLETOS E ABANDONADOS

 

Althea Hayton atribui o fato de «haver tantas pessoas que não conseguem desenvolver o seu potencial, que têm medo de se desenvolver, de explorar e descobrir o seu espírito, o seu corpo e a sua mente» à quebra precoce do vínculo com um gêmeo. Para provar a sua tese, propôs-se fazer «as perguntas certas» ao gêmeo sobrevivente no sentido de validar o seu desgosto e promover a sua cura, a psicoterapeuta pretende que o gêmeo desvanecido seja tomado como um bebé real, tarefa que poderá não ser difícil, uma vez que tem a convicção de que o sobrevivente tem um acesso privilegiado à história do seu gêmeo perdido. Resta dizer, que toda esta dinâmica é feita em contexto terapêutico. Apesar de não haver provas físicas tangíveis da morte de um irmão, Cláudia Pires de Lima, psicóloga e terapeuta familiar, concorda com a ideia de que, «mesmo em termos de senso comum, faz sentido que se sinta a falta de alguém com quem convivemos num período de tempo e num espaço físico limitado e que, por causas naturais não seguiu ao nosso lado até completar a viagem». Até porque, numa gravidez de nove meses, 12 semanas, o tempo que se calcula ter sido partilhado pelos dois gémeos no útero materno, «pode ser considerado um período já significativo de existência pré-natal». Mas a verdade é que, de acordo com o questionário de Althea Hayton, os gêmeos sobreviventes têm determinadas características que se aplicam a várias situações psicológicas dolorosas. Neste sentido, «não podemos afirmar que todos os que possuem essas mesmas características são gêmeos sobreviventes».

 

INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA NO LUTO

 

Cláudia Lima é de opinião de que a intervenção psicológica só deve entrar em ação depois de se comprovar que houve um fator de risco, ou seja, se houver um registo de que «se trata de um sobrevivente de gravidez gemelar». Quando existe conhecimento concreto dessa perda, «e a linguagem está adquirida, e sem limite de idade, a intervenção psicológica, embora adaptada à faixa etária, irá no sentido de ajudar a resolver este luto». Ou seja, com crianças ou adultos, é fundamental falar da perda do irmão gémeo, desde sempre, e nunca fazer segredo disso. Se a criança é mais crescida e domina a linguagem, «falar com ela no tempo certo, é ouro», diz Cláudia Lima, embora reconheça a «dificuldade que estes temas apresentem para a família». Tratando-se de um bebé, é ainda imprescindível um contacto físico afectuoso muito frequente. No vínculo entre mãe e filho, que deve ser forte e de qualidade, muito contacto físico e muitos cuidados maternais, ajudarão a criança a ultrapassar mais facilmente o sentimento de abandono. Hoje em dia, a prevenção é mais fácil, porque as mães sabem, através das ecografias, se os seus bebés tiveram um ou mais gêmeos, e por isso podem atuar mais cedo e com conhecimento de causa. Fazer o luto de um irmão é imprescindível. «Muitas vezes, com poucas sessões, desde que sejam incisivas na problemática, a questão resolve-se», garante Cláudia Lima.

 

Texto organizado por: 

Jaqueline Cássia de Oliveira

Agosto 2015

 

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